comportamento // 22 Jun 2026
O som da comunidade: como a música redefiniu a distribuição cultural e a economia da atenção
A música mostra que cultura não circula apenas por distribuição corporativa. Comunidades de fãs e plataformas reorganizaram a economia da atenção.
Como a lógica baseada na comunidade e a cultura participativa dos fandoms superaram os modelos corporativos de distribuição unilateral.
“A circulação comunitária baseia-se na agência humana, não em contaminação passiva.”
A tensão entre a infraestrutura técnica centralizada e as redes humanas descentralizadas define a dinâmica da economia da atenção atual. Historicamente, os detentores de direitos autorais e os conglomerados de comunicação operavam sob a premissa de que a distribuição de bens culturais ocorreria por meio de canais verticais e unidirecionais, nos quais o consumidor final exercia um papel majoritariamente passivo. A digitalização e a consolidação de ambientes interativos reconfiguraram esse equilíbrio de forças. A indústria fonográfica global atua como o principal laboratório dessas transformações, evidenciando que a distribuição tradicional foi progressivamente substituída por processos de circulação comunitária guiados por agrupamentos de fãs altamente mobilizados.
Os dados mais recentes do mercado fonográfico mundial demonstram a escala financeira desse novo modelo de circulação. De acordo com o relatório anual da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a IFPI, as receitas globais de música gravada atingiram 29,6 bilhões de dólares em 2024, registrando um crescimento de 4,8% em relação ao período anterior. O streaming tornou-se como o motor desse ambiente, faturando 20,4 bilhões de dólares, o equivalente a 69% da receita total do setor. No entanto, a análise meramente financeira desconsidera a transformação comportamental que sustenta esses números, o fato de que a circulação de faixas musicais depende diretamente da apropriação coletiva e da criação de redes de afinidade em plataformas digitais.
Compreender essa transição exige uma análise conceitual que articule as teorias de comunicação às evidências empíricas de mercado. Simultaneamente, torna-se necessário examinar as contradições regulatórias, acústicas e sociais que emergem quando marcas ou instituições públicas tentam impor produtos culturais de cima para baixo, ignorando as dinâmicas de consentimento e fones de ouvido que regem o espaço urbano atual. O fracasso do programa “Metrô+Música” na cidade de São Paulo constitui um exemplo pedagógico das consequências de desconsiderar a agência da audiência e a ecologia sonora das grandes metrópoles.
o fenômeno da circulação e a crise da retenção estática
O modelo de negócios da internet comercial foi estruturado, durante suas primeiras décadas, ao redor do conceito de fixação, conhecido tecnicamente no mercado publicitário como “stickiness”. Essa perspectiva, herdada diretamente das premissas de transmissão unidirecional do rádio e da televisão, foca em atrair a atenção do usuário para um canal centralizado e retê-lo ali o maior tempo possível para extrair valor financeiro por meio de publicidade ou assinaturas.
A teoria da comunicação atual, por meio dos estudos formulados por Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green, contrapõe essa visão por meio do conceito de espalhabilidade, ou “spreadability”. A espalhabilidade refere-se ao potencial técnico e cultural de os públicos compartilharem conteúdos para seus próprios objetivos, reformulando-os à medida que os reenviam para suas redes de relacionamento.
A tabela a seguir estabelece as diferenças conceituais entre esses dois modelos de distribuição de mídia:
| Parâmetro de Comparação | modelo da Fixação (Stickiness) | modelo da Espalhabilidade (Spreadability) |
|---|---|---|
| Fluxo de Informação | Centralizado, de cima para baixo, unidirecional. | Horizontal, descentralizado, multidirecional. |
| Papel do Usuário | Consumidor passivo, audiência mensurada por audiência estática. | Agente ativo de circulação, curadoria e remix. |
| Mecanismo de Valor | Retenção em portais proprietários fechados. | Transição e adaptação por meio de múltiplos canais. |
| Metáfora Predominante | Audiência cativa, portais de entrada fechados. | Economia de doação, circulação comunitária de bens. |
A distinção teórica entre “distribuição” e “circulação” fundamenta essa análise. Enquanto a distribuição representa o planejamento logístico e corporativo controlado pelas plataformas de tecnologia e grandes gravadoras, a circulação descreve o processo social e híbrido em que indivíduos comuns assumem o papel de propagadores desses bens culturais, decidindo de maneira consciente o que deve ser compartilhado.
A análise crítica condena o uso de expressões como “conteúdo viral” ou “mecanismos de infecção”, pois tais metáforas biológicas reduzem o comportamento ativo dos usuários a impulsos irracionais de contaminação passiva, ocultando a tomada de decisão social envolvida no ato de compartilhar. A circulação comunitária baseia-se na agência humana, na qual as faixas musicais ganham novos significados ao ingressar em subculturas específicas.
o que mudou nas forças de transformação cultural e tecnológica
A consolidação da cultura participativa foi impulsionada pela popularização de ferramentas de produção digital e pela expansão de redes sociais baseadas na lógica da Web 2.0. O fã de música, historicamente rotulado como um consumidor passivo ou um colecionador excêntrico, transformou-se no elemento estratégico primordial para a validação e circulação de qualquer lançamento fonográfico. O termo fandom passou a designar estruturas organizacionais informais de enorme complexidade, capazes de pautar algoritmos de recomendação, coordenar campanhas globais e redefinir a reputação de artistas.
Esse novo cenário de influência e consumo estrutura-se em canais interligados:
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Vídeos Curtos e Redes Sociais Visuais: Plataformas como TikTok e Instagram tornaram-se os novos locais de curadoria de massa. O lançamento de uma música envolve a criação de trechos de áudio editáveis que servem de apoio para encenações, tendências coreográficas ou expressões estéticas dos próprios usuários.
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Memes e Produção Transmídia: O consumo musical integra-se à criação de “edits” visuais e narrativas ficcionais. Fãs utilizam softwares de edição para associar faixas a personagens de séries, atletas ou momentos históricos, transformando o fonograma original em matéria-prima para novas linguagens.
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A Economia de Doação: Conforme detalhado nos estudos sobre fandoms, a dedicação voluntária a atividades como tradução de letras, legendagem de vídeos e modulação de comunidades online é orientada por uma lógica de reciprocidade, na qual o prestígio social e o pertencimento comunitário substituem o retorno monetário imediato.
Esse engajamento ativo significa que as gravadoras perderam o controle absoluto sobre o ciclo de vida de suas obras. O sucesso de um lançamento fonográfico não é mais determinado unicamente pela escala de sua distribuição corporativa, mas sim pela sua capacidade de ser integrado à rotina das interações cotidianas das comunidades online.
os dados centrais do mercado fonográfico global e nacional
A evolução das receitas globais da música gravada comprova que o streaming tornou-se como a espinha dorsal financeira do mercado fonográfico internacional. De acordo com a IFPI, em 2024, o número de usuários globais com assinaturas pagas atingiu 752 milhões de pessoas, registrando um crescimento de 10,6% em termos anuais. As assinaturas pagas geraram sozinhas um faturamento de mais de 20 bilhões de dólares, enquanto os serviços de streaming suportados por publicidade geraram 5,1 bilhões de dólares, representando uma alta modesta de 1,2%.
Para compreender a composição das receitas do setor em 2024, a tabela abaixo apresenta a divisão do mercado global por formatos e fontes de arrecadação:
| Formato ou Fonte de Receita | Faturamento Global (US$ bilhões) | Participação no Mercado (%) | Taxa de Crescimento Anual (%) |
|---|---|---|---|
| Streaming (Assinaturas e Ad-Supported) | 20,4 | 69,0 | 9,5 (Assinaturas) / 1,2 (Ad-Supported) |
| Vendas Físicas (CDs, DVDs e Vinil) | 4,8 | 16,2 | -3,1 (Total Físico) / +4,6 (Apenas Vinil) |
| Direitos de Execução Pública | 2,9 | 9,8 | 5,9 |
| Licenciamento de Sincronização | 0,65 | 2,2 | 6,4 |
| Outros Formatos Digitais | 0,85 | 2,8 | - |
O mercado físico recuou 3,1% no plano geral, mas a venda de discos de vinil registrou seu 18º ano consecutivo de expansão com uma alta de 4,6%, confirmando o apetite dos colecionadores por suportes tangíveis de alta diferenciação estética.
A análise comparativa entre as edições de 2025 e 2026 do Global Music Report da IFPI revela que a expansão do mercado fonográfico acelerou significativamente em termos globais. Enquanto 2024 encerrou com uma receita de 29,6 bilhões de dólares (+4,8%), o balanço consolidado de 2025 registrou receitas globais de 31,7 bilhões de dólares, representando um avanço robusto de 6,4%. O número de contas de assinaturas pagas saltou para 837 milhões no mesmo período.
As dinâmicas de crescimento regional também apresentaram modificações relevantes entre os dois períodos, conforme detalhado na tabela abaixo:
| Região Geográfica | Crescimento de Receita em 2024 (%) | Crescimento de Receita em 2025 (%) | Destaques e Mudanças de Momentum |
|---|---|---|---|
| Oriente Médio e Norte da África | 22,8 | Estável | Liderança sustentada pelo streaming, representando 99,5% do mercado. |
| América Latina | 22,5 | Em aceleração | Destaque para o ingresso do México no top 10 global e expansão constante do Brasil. |
| África Subsaariana | 22,6 | Desaceleração nominal | Crescimento contínuo em volume absoluto, ultrapassando 120 milhões de dólares em 2025. |
| Ásia | 1,3 | 10,9 | Forte recuperação no mercado japonês (+8,9%) e expansão do mercado chinês. |
| Europa | 8,3 | Em expansão | Crescimento liderado por França (+7,5%), Reino Unido (+4,9%) e Alemanha. |
| América do Norte | 2,1 | Estável | Os Estados Unidos retêm a liderança global, detendo 40,3% de toda a receita mundial. |
No Brasil, os dados anuais divulgados pela Pró-Música Brasil demonstram a potência do mercado nacional, que superou pela primeira vez a marca de 3 bilhões de reais em faturamento. O setor faturou 3,486 bilhões de reais em 2024, acumulando um avanço expressivo de 21,7% em relação ao ano de 2023. O mercado digital representou a imensa maioria desse faturamento, respondendo por R$ 3,081 bilhões. O streaming sob demanda isolado somou R$ 3,055 bilhões, representando 87,6% da receita total brasileira e 99,2% quando consideradas apenas as vendas físicas e digitais somadas.
A distribuição dessas receitas no ambiente digital brasileiro indica que as assinaturas pagas (Spotify, Deezer, Apple Music, YouTube Music e Amazon Music) somaram R$ 2,077 bilhões, com alta anual de 26,9%. O mercado físico brasileiro continua residual, somando apenas R$ 8 milhões na metade inicial de 2023, com o vinil liderando sobre o formato CD.
A identidade nacional de consumo no país é evidenciada pela seguinte equação, que demonstra que o repertório doméstico detém a preferência das audições digitais:
\[P_{nacional} = \frac{\sum_{i=1}^{1000} S_{nacional, i}}{\sum_{i=1}^{1000} S_{total, i}} = 76\%\]Onde $S_{nacional}$ indica as execuções de faixas produzidas por artistas brasileiros dentro do grupo das 1.000 músicas mais consumidas nas plataformas de streaming em território nacional. Essa preferência pelo conteúdo nacional exige que qualquer inserção comercial no Brasil esteja alinhada às expressões identitárias locais.
a disputa por trás da narrativa da democratização
A expansão das redes digitais de circulação é frequentemente acompanhada por discursos corporativos celebratórios que enfatizam a completa descentralização da criação artística e o fim dos intermediários tradicionais. Essa narrativa de mercado sustenta que as plataformas de streaming e as redes sociais democratizaram o acesso à audiência de forma irrestrita, permitindo a sobrevivência econômica de criadores independentes. No entanto, a análise empírica revela que a desintermediação das antigas gravadoras deu lugar a novas formas de controle tecnológico, centralizadas em algoritmos de recomendação fechados e proprietários.
Os conflitos estruturais que desmentem o discurso da democratização linear incluem:
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Saturação e Monopólio da Atenção: A disponibilização diária de dezenas de milhares de novas faixas musicais gera uma sobrecarga que inviabiliza a descoberta orgânica de novos artistas. Sem investimentos maciços em publicidade direcionada ou a inclusão de faixas em listas de reprodução editoriais controladas diretamente pelas grandes companhias, a maioria dos fonogramas permanece inacessível ao público geral.
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Exploração do Trabalho Imaterial de Fãs: A monetização das plataformas de redes sociais depende diretamente da atividade gratuita exercida pelas comunidades de fãs, as quais organizam debates, editam conteúdos promocionais e coordenam campanhas voluntárias de engajamento. O valor financeiro gerado por esse trabalho imaterial é capturado pelas empresas de tecnologia, enquanto os repasses financeiros por reprodução aos criadores de médio e pequeno porte continuam irrisórios.
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Surgimento de Fraudes Sistêmicas: A proliferação de esquemas ilícitos de manipulação de reproduções, conhecidos como fazendas de cliques (“streaming manipulation”), desvia recursos financeiros do fundo geral de royalties das plataformas, prejudicando a subsistência de artistas reais e deturpando os dados públicos de audiência.
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Uso Não Autorizado de Catálogos por Inteligência Artificial: A coleta de acervos protegidos por direitos autorais para alimentar modelos de geração automatizada de conteúdo sem o consentimento ou a compensação dos criadores humanos é denunciada pela CEO da IFPI, Victoria Oakley, como uma violação aos direitos intelectuais e um ataque à sobrevivência econômica dos artistas de carreira.
Portanto, a dinâmica do mercado fonográfico não se desenvolve de forma livre, mas sim em meio a uma disputa entre a criatividade descentralizada dos públicos e os mecanismos proprietários de extração de valor econômico comandados pelas plataformas de tecnologia.
implicações para marcas e instituições corporativas
A reconfiguração das dinâmicas de consumo impõe que marcas comerciais e instituições corporativas reformulem suas estratégias de presença no território cultural. A prática tradicional de tratar a música como um mero elemento sonoro decorativo ou um simples patrocínio passivo de grandes festivais de entretenimento demonstra pouca efetividade junto a audiências que pautam seu consumo por meio de dinâmicas baseadas na circulação social e no pertencimento a comunidades.
Para estabelecer conexões relevantes com o público atual, as marcas devem estruturar suas ações sob as seguintes diretrizes:
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Estratégia Social-First Baseada em Fandoms: O foco das campanhas publicitárias deve migrar da interrupção comercial intrusiva para a inserção orgânica nos fluxos de conversação dos públicos. A marca atua como uma facilitadora de conversas preexistentes, reconhecendo e incentivando a soberania do grupo de fãs.
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Adoção do Conceito de Fandom Service: Iniciativas bem-sucedidas buscam atender às demandas e anseios específicos das comunidades de fãs em vez de simplesmente impor mensagens promocionais lineares. O projeto concebido pela marca Dove no Rio de Janeiro exemplifica esse movimento ao levar suporte direto e experiências focadas nos fãs às ruas da cidade, integrando a publicidade aos rituais sociais do público consumidor.
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Estímulo à Cocriação Descentralizada: Campanhas atual devem disponibilizar ativos de marca que facilitem a apropriação criativa pelos usuários. A ativação sensorial desenvolvida pelo artista Bad Bunny em Porto Rico, na qual os fãs decifraram de forma cooperativa pistas geográficas no Google Maps para acessar audições exclusivas, ilustra a potência da circulação interativa.
A inteligência de comunicação corporativa deve compreender que as marcas não controlam as narrativas digitais. A função das empresas consiste em apoiar, subsidiar e participar dos espaços de afinidade construídos pelas comunidades de fãs, minimizando ruídos e potencializando a identificação de grupo através da distribuição comunitária.
riscos e contradições: o fracasso da imposição acústica no metrô de são paulo
A tentativa de impor de maneira forçada um bem cultural a uma audiência cativa sem compreender as regras de convivência social e o comportamento individual resulta em atritos estruturais e severos prejuízos reputacionais. O maior exemplo dessa dissonância no contexto da infraestrutura urbana de trânsito ocorreu na cidade de São Paulo, através do projeto experimental denominado “Metrô+Música”.
Idealizado na gestão do então governador Márcio França, sob o comando do secretário dos Transportes Metropolitanos, Clodoaldo Pelissioni, o projeto teve início na sexta-feira, 6 de julho de 2018, em seis estações experimentais: Sé, São Bento, Palmeiras-Barra Funda, Corinthians-Itaquera, Paraíso e Vila Madalena. Na terça-feira, 10 de julho de 2018, a transmissão foi expandida para todas as 55 estações pertencentes às linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha, além de passar a funcionar no interior dos trens.
A programação estendia-se diariamente das 6:00 às 22:00, veiculando playlists elaboradas pelo Instituto de Cultura e Cidadania, o iCult, entidade terceirizada que recebia 40.000 reais mensais pelo gerenciamento das faixas instrumentais de jazz, MPB, bossa nova, samba e música clássica, totalizando um gasto de 240.000 reais aos cofres públicos durante o período de funcionamento da ação.
O projeto enfrentou forte rejeição por parte dos passageiros e foi contestado silenciosamente pelo corpo técnico de engenharia do próprio Metrô. Em 8 de fevereiro de 2019, após uma onda constante de queixas e queixas públicas nas redes sociais, a companhia divulgou uma curta nota de 14 palavras anunciando o encerramento do programa, que “demonstrou que não era viável” e seria descontinuado por seu caráter “experimental”. A assessoria de Márcio França declarou na época que a decisão da nova gestão de suspender as músicas era política e que o projeto original visava humanizar o transporte e apoiar a cultura.
A análise técnica do colapso desse programa revela contradições que devem servir de alerta para qualquer gestor de marca ou planejador de políticas públicas.
a incoerência regulatória e disciplinar
Historicamente, o sistema metroferroviário de São Paulo conduziu campanhas de comportamento social baseadas no respeito mútuo, incentivando os usuários a usar fones de ouvido para não interferir no espaço sonoro alheio. Em 13 de agosto de 2013, o Metrô lançou a campanha “Espalhar o Respeito” (também divulgada como “Espalhe Respeito”), que trazia orientações estritas para os passageiros usarem fones de ouvido nas composições e realizarem denúncias via SMS caso flagrassem infrações ao silêncio coletivo. Esse regramento foi respaldado formalmente pela Lei Municipal 15.937/2013, que proíbe o acionamento de aparelhos sonoros em alto volume no interior dos veículos de transporte público de São Paulo.
Ao utilizar o próprio sistema oficial de alto-falantes para impor playlists coletivas diárias, o Metrô incorreu em uma incoerência institucional direta. Os alto-falantes que outrora emitiam advertências regulatórias exigindo o uso individual de fones de ouvido passaram a despejar músicas instrumentais contínuas em todos os vagões, anulando a autonomia dos usuários. A contradição direta desgastou a confiança dos passageiros na seriedade das políticas comportamentais do sistema.
a incompatibilidade acústica física do ambiente de tráfego
O projeto “Metrô+Música” demonstrou desconhecimento a respeito das características físicas e mecânicas da engenharia sobre trilhos. Os trens metropolitanos produzem de maneira intrínseca um ruído mecânico severo, decorrente do contato da roda com o trilho de aço no momento do deslocamento e aceleração dos vagões.
Para que as faixas delicadas de bossa nova ou MPB instrumental pudessem ser minimamente percebidas pelos usuários acima do estrondo físico natural dos trens, a companhia era obrigada a elevar o volume de reprodução das caixas acústicas a patamares extremamente altos. O resultado não se traduziu em relaxamento, mas sim na ampliação da saturação sonora ambiental.
A pesquisa em ecologia acústica aponta que o acúmulo de ruído industrial somado a emissões harmônicas invasivas coloca o ambiente urbano no estado que Murray Schafer descreve como “lo-fi” (baixa fidelidade), no qual a paisagem sonora é de tal forma mergulhada em barulhos que os indivíduos perdem a capacidade de distinguir entre um som de sinalização informativa essencial e o som de fundo, gerando estresse fisiológico e fadiga auditiva aos passageiros.
o uso político do som como ferramenta imperialista de controle territorial
A imposição do programa de som ambiente trazia consigo intencionalidades de ordem disciplinar e política que contradiziam o discurso promocional de humanização do metrô. O vagão do trem, no contexto de uma megacidade, constitui um espaço público heterogêneo, no qual emergem expressões de sobrevivência econômica e apresentações artísticas espontâneas, representadas por músicos populares que tocam em busca de gorjetas e vendedores ambulantes informais que usam a voz em alto volume para comercializar produtos clandestinos.
A tática de espalhar música oficial de alta intensidade e manter todas as saídas de áudio do sistema operando em plena capacidade enquadra-se no conceito de “sons imperialistas” proposto por Murray Schafer. Sob esse prisma, o som institucional é utilizado como ferramenta de poder político-territorial, modulando o espaço auditivo com o propósito deliberado de abafar, silenciar e desautorizar expressões de rua indesejadas pela administração. A justificativa estética e cultural ocultava um mecanismo de vigilância, higienização social e exclusão das manifestações espontâneas da vida urbana nos vagões.
Esse tipo de intervenção sonora já havia se provado ineficaz no histórico de transporte do estado. A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM, experimentou iniciativas similares em pelo menos duas ocasiões anteriores:
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Início dos anos 2000: A CPTM realizou testes com música ambiente nos trens do Expresso Leste, pertencentes à Linha 11-Coral.
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Ano de 2006: O teste estendeu-se para as estações das antigas linhas A e D, atuais linhas 7-Rubi e 10-Turquesa, transmitindo a programação sintonizada de uma emissora de rádio FM diretamente a partir do Centro de Controle Operacional da Luz.
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Linha 9-Esmeralda: O sistema experimentou um período de transmissão de música erudita instrumental de compositores clássicos. Os usuários criticavam os maquinistas perguntando se não era possível remover a música, considerada sonolenta para as primeiras horas do dia, argumentando que a preferência individual era utilizar seus próprios dispositivos móveis.
Em todas as tentativas, a forte reação contrária dos usuários e o volume expressivo de reclamações forçaram o cancelamento dessas iniciativas, demonstrando que o passageiro do sistema de transporte público rejeita de forma sistemática a intrusão acústica coletiva não consentida.
o que precisa ser empiricamente provado para consolidar a tese da circulação comunitária
A despeito de o modelo da espalhabilidade e da circulação baseada em fandoms encontrar ampla ressonância teórica e ser respaldado por dados globais de crescimento financeiro das plataformas, subsistem lacunas analíticas que necessitam de comprovação empírica por meio de pesquisas de comunicação aplicada:
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Diferenciação entre Tráfego Pago e Mobilização de Base: É necessário estruturar métodos estatísticos capazes de isolar o percentual de reproduções e vendas decorrentes da mobilização comunitária espontânea dos fãs daquilo que é induzido diretamente pelo investimento financeiro em tráfego pago realizado pelas empresas fonográficas.
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Sustentabilidade para Criadores de Médio Porte: Precisa-se mapear se o modelo de circulação digital favorece de fato a sobrevivência econômica de artistas independentes situados na cauda longa do consumo ou se atua apenas para hiperconcentrar lucros no topo monopolista do mercado global.
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Conversão do Capital de Afinidade em Lealdade Comercial: Falta demonstrar de que maneira o engajamento emocional voluntário de um fandom em campanhas de “fandom service” de marcas se traduz em lealdade comercial estável a médio e longo prazo, além de meras métricas efêmeras de repercussão digital.
A elucidação dessas lacunas exige que os profissionais de comunicação desenvolvam pesquisas de comportamento do consumidor integradas, que combinem monitoramento semiótico de redes digitais e dados de fluxo de tráfego de forma científica e independente.
a disputa pelo direito de circular
A transição dos modelos corporativos tradicionais para redes comunitárias de afinidade modificou irrevogavelmente a estrutura de circulação de bens de consumo e produtos culturais. O sucesso comercial sustentado da indústria da música mundial, expresso no faturamento histórico registrado nos relatórios de mercado de 2024 e 2025, atesta a validade de uma abordagem que reconhece a soberania da audiência e abdica do controle estático de distribuição em favor da circulação coletiva.
Inversamente, as iniciativas estatais malsucedidas de sonorização forçada nos trens de São Paulo expõem os limites e os prejuízos reputacionais de ignorar a autonomia e as preferências de fones de ouvido dos cidadãos em suas percursos quotidianas. Na contemporaneidade, a atenção de um público não é um ativo fixo que pode ser conquistado através da mera intrusão ou da ocupação física coercitiva de espaços.
A construção de relevância corporativa e reputação institucional requer das empresas e gestores públicos a compreensão de que as audiências não são receptores passivos, mas sim os agentes ativos que determinam o valor social de qualquer mensagem comercial.