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Luxo no Brasil não é classe A

moda // 22 Jun 2026

Luxo no Brasil não é classe A

Classe A mede capacidade de consumo; luxo exige raridade, capital cultural e barreiras de acesso. No Brasil, essa confusão distorce posicionamentos.

classe a mede renda, não luxo

No Brasil, muitas marcas usam “luxo” como sinônimo de preço alto, estética polida e público de maior renda. A literatura de gestão de marcas exige mais da categoria: exclusividade, qualidade superior, apuro estético, valor emocional, raridade e barreiras de acesso. A chamada “democratização do luxo” descreve justamente a perda de distinção percebida quando a disponibilidade se amplia demais. [1]

“Dinheiro compra a possibilidade de entrada, mas não compra automaticamente pertencimento.”

Em outras palavras: a sua crítica ao marketing que se fantasia de luxo sem operar como luxo é consistente com o que a literatura chama de deslocamento entre posicionamento aspiracional e regime efetivo de luxo. Quando a marca precisa de escala, abertura de canal, alcance e recorrência de compra em bases relativamente amplas, ela já começa a se afastar do luxo estrito e a se aproximar de premium ou masstige. [2]

onde a definição exige cuidado

O primeiro ajuste importante é trocar a frase “classe A = luxo” por uma formulação mais rigorosa: classe A é um critério de mercado de capacidade de consumo, não uma definição sociológica de elite nem uma definição de mercado de luxo. A própria ABEP define o Critério Brasil como um sistema para identificar grupos por capacidade de consumo e classificar domicílios, não indivíduos, e o documento de 2024 mostra que a classe A representa 3,1% dos domicílios no Brasil total e 6,3% no recorte das nove regiões metropolitanas. O mesmo documento também afirma que há sobreposições importantes de renda entre as classes, razão pela qual renda isolada não é um estimador suficiente de posição socioeconômica. [3]

O segundo ajuste é abandonar o número “40 pessoas” como se fosse um dado demográfico. Como metáfora, ele comunica hiperconcentração; como estatística, ele não se sustenta. O World Inequality Database estima que, em 2024, o top 10% concentrou 59,1% da renda nacional e 70,1% da riqueza do país, enquanto o top 1% ficou com 26,5% da renda e 37% da riqueza. O IBGE informou que, em 2024, o 1% com maiores rendimentos recebeu 36,2 vezes o que receberam os 40% mais pobres. E a Forbes listou 71 brasileiros com patrimônio superior a US$ 1 bilhão no ranking global de 2026. Portanto, o ponto forte não é dizer que “a elite cabe em 40 pessoas”, mas que o núcleo duro da elite econômica e patrimonial brasileira é extremamente pequeno, fechado e concentrado, muito menor do que a maior parte das marcas imagina atingir. [4]

luxo, premium e masstige não são a mesma coisa

A literatura diferencia essas categorias com bastante clareza. Não existe uma definição universal de luxo, mas há consenso em torno de alguns elementos: qualidade, exclusividade, distinção, raridade, história da marca, apuro estético e valor simbólico. Hudders, Pandelaere e Vyncke organizam essa percepção em três dimensões: a expressiva, ligada à exclusividade; a funcional, ligada à qualidade superior; e a emocional, ligada à estética. Brun e Castelli também mostram que preço e função, sozinhos, não definem o luxo. [5]

Kapferer e Valette-Florence avançam nesse ponto ao afirmar que alta qualidade é necessária, mas insuficiente para que algo seja percebido como luxo. Para eles, o produto também precisa funcionar como marcador social e cultural; o regime de luxo exige difusão restrita, distribuição seletiva, limitação de linhas acessíveis e, em certos contextos, até seleção de clientes. Em síntese: premium entrega superioridade percebida; luxo entrega superioridade percebida mais raridade, filtro e distinção. [6]

É por isso que o termo mais adequado para muitas marcas que se chamam de luxo, mas operam com lógica de ampliação de base, é masstige. A literatura define masstige como “luxury for the masses” ou “prestígio para as massas”, uma zona híbrida entre mercado médio e superpremium, orientada à classe média aspiracional. A pesquisa sobre democratização do luxo mostra exatamente o dilema: quanto maior a disponibilidade e o acesso, menor tende a ser a distintividade percebida do bem em contextos de sinalização social. [7]

dinheiro compra produto, não compra pertencimento

A parte mais sofisticada da sua teoria é esta: no topo do jogo social, dinheiro não basta. A sociologia da distinção, inspirada em Bourdieu e mobilizada em estudos brasileiros sobre classes altas, sustenta que a reprodução da posição de elite depende de capital econômico, mas também de capital cultural e capital social: repertório, gosto, fluência em códigos, modos de falar, circular e ser reconhecido. Em estudo sobre classes altas paulistanas, Carolina Pulici mostra que preferências e aversões estéticas não são detalhe; elas participam da própria construção da realidade dessas elites. [8]

É aí que a oposição popular entre old money e new money ganha algum valor analítico, desde que usada com cuidado. No uso corrente, old money se refere a fortunas herdadas e socializadas ao longo de gerações, enquanto new money remete à riqueza recente. Cientificamente, o contraste é menos sobre “elegância natural” e mais sobre a diferença entre riqueza acompanhada de capital cultural herdado e riqueza recente ainda em busca de legitimação simbólica. Não é uma classificação do IBGE, nem uma categoria formal de pesquisa de mercado; é um atalho popular para falar de socialização de elite. [9]

O livro Coisa de Rico, de Michel Alcoforado, oferece uma chave interpretativa útil: a riqueza, no Brasil, é relacional - “os ricos são sempre os outros” - e o jogo da distinção não depende apenas do tamanho da conta bancária. O argumento ganha precisão quando cruzado com dados de desigualdade e com a literatura sobre marcas de luxo. [10]

exemplos concretos de gatekeeping no luxo

Esse filtro aparece de forma explícita na própria literatura recente de branding de luxo. Artigo de 2024 no Journal of Brand Management afirma que marcas de luxo sustentam sua exclusividade restringindo a acessibilidade de certos produtos e eventos. Os autores citam, como exemplos, festas por convite da Hermès e atendimentos one-to-one em salas VIP da Dior, pensados para diferenciar clientes fiéis dos “outsiders”. No mesmo artigo, listas de espera, limitação deliberada de produção e controle de disponibilidade aparecem como mecanismos clássicos de construção de raridade e desejo. [11]

Os casos concretos mostram como essas barreiras funcionam. Em 2024, uma ação judicial na Califórnia acusou a Hermès de condicionar o acesso à Birkin a um histórico de compras em outros produtos e de mostrar a bolsa em sala privada apenas a clientes considerados aptos. A empresa negou irregularidades, e a disputa seguia em tramitação naquele ano. A alegação não prova uma regra para toda a indústria, mas mostra que, em certos segmentos do ultraluxo, ter dinheiro para comprar não garante acesso ao objeto mais simbólico. [12]

Existe ainda um exemplo institucional forte: a própria Fédération de la Haute Couture et de la Mode informa que a acreditação de haute couture depende de critérios de savoir-faire, personalização, ritmo de coleções e know-how de ateliê. Ou seja, até o rótulo máximo da moda de luxo é protegido por um sistema seletivo e normativo, não por autodeclaração. Em relógios, o fechamento aparece de outra maneira: a Bloomberg relatou que, em boutiques da Rolex, modelos mais cobiçados simplesmente não estão disponíveis e as listas de espera podem durar semanas, meses ou anos. [13]

uma definição mais precisa

A formulação mais robusta seria esta: no Brasil, muitas marcas não falam com o luxo; falam com o premium, com o aspiracional ou com o masstige, mas usam o vocabulário do luxo para emprestar status ao próprio posicionamento. “Classe A” não é elite no sentido sociológico, nem luxo no sentido do branding. Luxo estrito continua associado a raridade, distribuição seletiva, barreiras materiais e simbólicas de acesso, capital cultural e reconhecimento entre pares. Logo, a frase mais sólida não é “minha marca atende luxo porque atende classe A”; a frase mais sólida é “minha marca atende consumidores de maior capacidade de consumo, alguns aspiracionais, alguns premium, talvez parte da classe alta em ascensão - o que é bem diferente de operar no circuito do luxo”. [14]

Uma formulação mais defensável evita números sem base verificável: o núcleo que concentra dinheiro, repertório e poder simbólico no Brasil é muito menor do que o mercado chama de classe A. O argumento preserva a crítica e resiste melhor quando confrontado com dados. [15]